Perdão

1527933_479876025455197_1471826859_nCapítulo do livro “Caminhos Antigos”

Escrito por

J.C.Ryle

1º Bispo da diocese da Igreja da Inglaterra em Liverpool

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Vossos pecados são perdoados” – 1 João 2:12

Há uma cláusula no final do Credo dos Apóstolos que eu temo que seja muitas vezes repetida sem reflexão ou consideração. Refiro-me a cláusula que contém essas palavras, “Creio no Perdão dos pecados”. Temo que centenas de pessoas, nunca refletiram o que essas palavras significam. Proponho examinar esse assunto nesse Artigo, e chamo atenção de todos que cuidam de suas almas e querem ser salvos. Acreditamos na “Ressurreição de nossos corpos”? Então vamos ver algo que sabemos sobre a experiência do “Perdão dos pecados”.

I. Deixe-me mostrar, antes de tudo, nossa necessidade de perdão

Todos os homens necessitam de perdão, porque todos os homens são pecadores. Quem não sabe disso, não sabe nada sobre religião. É o A B C do Cristianismo, no qual o homem deve conhecer seu lugar correto na visão de Deus, e saber o que merece.

Nós somos todos grandes pecadores. “Não há um justo sequer, não há ninguém”. – “Todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Romanos 3:10 e 23). Nascemos pecadores e somos pecadores por todas nossas vidas. Nós tomamos o pecado naturalmente desde o início. Nenhuma criança precisa ir à escola para ser ensinada a fazer o que é errado. Nenhum demônio ou má companhia nos leva a maldade como nossos próprios corações. E “o salário do pecado é a morte” (Romanos 6:23). Devemos ser perdoados ou se não estaremos eternamente perdidos.

Todos nós somos pecadores culpados aos olhos de Deus. Temos quebrado Sua santa lei. Temos transgredido seus preceitos. Não temos feito Sua vontade. Não há nem sequer um dos dez mandamentos que não nos condene. Se não os quebramos em ações, quebramos em palavras; se não quebramos em palavra, quebramos na mente e na imaginação, e fazemos isso continuamente. Julgados pelo padrão do quinto capítulo do livro de Mateus, nenhum de nós pode ser aceito. Todo o mundo é “culpado diante de Deus”. E “assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo depois disto, o juízo”, nós devemos ser perdoados ou perecer eternamente (Romanos 3:19; Hebreus 9:27).

Quando ando nas ruas abarrotadas de Londres, vejo centenas e milhares de pessoas das quais não conheço nada, além de sua aparência externa. Vejo alguns inclinados ao prazer, outros ao dinheiro, alguns que parecem ricos, outros que parecem pobres, alguns andando em suas carruagens, outros correndo a pé. Cada um com suas finalidades em vista. Cada um com seus próprios alvos e objetivos, tudo igualmente oculto a mim. Mas quando olho para eles, uma coisa sei com certeza, que todos são pecadores. Não há uma alma dentre todos eles que não “mereça a ira e a condenação de Deus”, conforme pode-se ver no 9º Artigo[1]. Todo homem ou mulher que respira em meio à multidão ou deverá ser perdoado, ou ressuscitará para ser condenado para sempre no último dia.

Quando olho todo o tamanho e espaço da Grã Bretanha, devo fazer o mesmo relato. De leste em North Foreland ao oeste em Land’s End, do norte em Caithness ao sul na Ilha Wight, desde a Rainha Vitória no trono até ao indigente no hospício, todo nós somos pecadores. Nós ingleses fizemos nome entre os impérios da terra. Enviamos nossos navios para todos os mares e nosso comércio para cada cidade do mundo. Abrimos caminho para o Atlântico com nossos barcos a vapor. Fizemos as noites em nossas cidades parecer dia com o gás. Podemos trocar ideias entre Londres e Edimburgo em poucos segundos com o telégrafo eletrônico. Mas com todas as nossas artes e ciências, com todas nossas maquinarias e invenções, com todo nosso exército e marinha, com todos nossos juristas e estadistas, nós não alteramos a natureza de nosso povo. Ainda somos, aos olhos de Deus, uma ilha repleta de pecadores.

Quando mudamos nosso olhar para o mapa do mundo, eu digo a mesma coisa. Não importa qual quadrante eu examine: verei que os corações dos homens são os mesmos em qualquer lugar, e em todo lugar os corações são perversos. Pecado é uma doença de família de todos os filhos de Adão. Nunca houve um canto da terra descoberta onde o pecado e o diabo não reinem. Mesmo que a diferença entre as nações seja tão extensa, sempre se descobrirá que ela tem uma grande marca em comum. Europa e Ásia, África e América, Islândia e Índia, Paris e Pequim, todas semelhantemente tem a marca do pecado. Os olhos do Senhor passam sobre nosso globo, que gira ao redor do sol, e o vê coberto com corrupção e maldade. O que ele vê na lua e nas estrelas, em Júpiter e Saturno, não posso dizer, mas na terra eu sei que Ele vê pecado (Sl 19:2, 3).

Não tenho dúvida que tal linguajar soe extravagante para alguns. Você acha que estou indo muito longe. Mas note bem o que estou prestes a dizer, e então considere se não tenho usado palavras de sobriedade e verdade.

Então eu pergunto o que é a vida do melhor Cristão entre todos nós? O que é, senão uma grande carreira de deficiências? O que é, senão um agir diário como diz nosso Livro de Oração diz – “deixando de fazer coisas que devemos fazer, e fazendo coisas que não devíamos fazer”? Nossa fé, quão fraca! Nosso amor, quão frio! Nossas obras, quão poucas! Nosso zelo, quão pequeno! Nossa paciência, quão curta! Nossa auto-negação, quão ínfima! Nosso conhecimento, quão obscuro! Nossa espiritualidade, quão rasa! Nossas orações, quão formais! Nosso desejo por mais graça, quão débil! Nunca o mais sábio dos homens disse tão sabiamente do que quando ele disse que, “não há homem justo sobre a terra, que faça o bem e que não peque” (Eclesiastes 7:20). Disse o apóstolo Tiago que, “todos tropeçamos em muitas coisas” (Tiago 3:2).

E qual é a melhor ação que é feita pelo melhor dos Cristãos? O que é senão uma obra imperfeita, quando tentada por seus próprios méritos? Não é, como diz Lutero, nada melhor do que “um esplêndido pecado”. É sempre, mais ou menos defeituosa. Ou é errada em seus motivos ou incompleta em seu desempenho; ou não é feita por princípios perfeitos ou não é executada de maneira perfeita. Os olhos do homem podem não enxergar erro em suas obras, mas pesadas na balança de Deus podem ser achadas insuficientes, e vista a luz do céu poderia se achar cheia de falhas. É como a queda d’água que parece clara a olho nu, mas colocada sob um microscópio, descobre-se que está cheia de impurezas. O relato de Davi é literalmente verdadeiro: “não há quem faça o bem, nenhum sequer” (Salmo 14:3).

E então, o que é o Senhor Deus, cujos olhos estão em todos nossos caminhos, diante de quem um dia teremos que prestar contas? “Santo, Santo, Santo”, é a marcante expressão dada a Ele por aqueles que se aproximam Dele (Isaías 6:3; Apocalipse 4:8). Isso soa como se não houvesse palavra que poderia expressar a intensidade de Sua santidade. Um de Seus profetas disse: “Tu és tão puro de olhos, que não podes ver o mal e a opressão não podes contemplar” (Habacuque 1:13). Nós pensamos nos anjos como seres exaltados, e muito acima de nós; mas nos é dito nas Escrituras: “Eis que não confia nos seus servos e aos seus anjos atribui imperfeições” (Jó 4:18). Admiramos a lua, estrelas e outros corpos celestes esplendidos; mas lemos: “Eis que até a lua não tem brilho, e as estrelas não são puras aos olhos Dele” (Jó 25:5). O que todos nós somos, senão pecadores miseráveis aos olhos de tal Deus?

Sem dúvida, todos nós devemos cessar com os pensamentos orgulhosos acerca de nós mesmos. Devemos colocar as mãos em nossas bocas e dizer com Abraão, “sou pó e cinza”; e com Jó, “sou vil”; e com Isaías, “todos nós somos como o imundo”, e também com João, “se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos e a verdade não está em nós”. (Gênesis 18:27; Jó 40:4; Isaías 64:6; 1 João 1:8). Onde há um homem ou mulher em todo o Livro da Vida que será capaz de dizer algo, além disso: “eu obtive misericórdia”? O que é companhia dos apóstolos, a agradável comunhão dos profetas, o nobre exército de mártires? O que são, senão pecadores perdoados? Só uma conclusão podemos chegar: Todos nós somos grandes pecadores e nós todos precisamos de grande perdão.

Agora veja qual é a única razão que tenho para conhecer que nossa necessidade de perdão é algo primário da verdadeira religião. O pecado é um fardo, e deve ser retirado. Pecado é uma mácula, e deve ser purificado. Pecado é uma poderosa dívida, e deve ser paga. O Pecado é uma montanha que se levanta entre nós e o céu, e deve ser removido. Feliz é o nascido de mulher entre nós que sinta tudo isso! O primeiro passo, em direção ao céu, é enxergar claramente que merecemos o inferno. Há somente duas alternativas diante de nós: precisamos ou ser perdoados, ou sermos miseráveis para sempre.

Também veja como muitas pessoas pouco sabem sobre o principal desígnio do Cristianismo, embora eles vivam em uma terra Cristã. Elas fantasiam que vão para igreja para aprender o seu dever, ouvir sobre obrigação da moralidade, e para nenhum outro propósito. Elas esquecem que filósofos pagãos podem dizer a elas tanto quanto tudo isso. Elas esquecem que homens como Platão e Sêneca deram ensino que deve envergonhar qualquer Cristão mentiroso, bêbado e ladrão. Eles ainda têm que aprender que carregar a marca do Cristianismo é um remédio fornecido para o pecado. Essa é a glória e a excelência do Evangelho. O Evangelho encontra o homem como ele realmente é. Toma-o da maneira em que ele se encontra. Abaixa-se ao nível em que o pecado o trouxe e se oferece para ressuscitá-lo. Fala para ele de um remédio que se equipara a sua doença – um grande remédio para uma grande doença – um grande perdão para grandes pecadores.

Peço para cada leitor considerar essas coisas muito bem, caso ele nunca as tenha considerado. Isso não é uma leve questão sobre se você conhece ou não as necessidades de sua alma: é uma questão de vida ou morte. Eu imploro, tente se tornar íntimo de seu próprio coração. Sente-se e pense em silêncio o que você é aos olhos de Deus. Traga juntos seus pensamentos, palavras, ações de qualquer dia de suas vidas, e meça tudo pela medida da Palavra de Deus. Julgue a você mesmo honestamente, e diga se não pode ser condenado no último dia. Oh, que você possa achar o que você realmente é. Oh, que você possa aprender orar a oração de Jó: “Quantas culpas e pecados tenho eu?” (Jó 13:23). Oh, que você possa ver essa grande verdade. Até que você seja perdoado, seu Cristianismo não tem feito nada para você, de jeito nenhum!

II. Deixe-me destacar, em segundo lugar, o caminho para o perdão.

Peço atenção particular a esse ponto, pois nada pode ser mais importante. Suponha por um minuto que você queira a desculpa e o perdão, o que você deve fazer para isso? Para onde você vai? Qual caminho você deve tomar? Tudo se articula na resposta que você dá para essa questão.

Você se voltará para ministros e colocará sua confiança neles? Eles não podem lhe dar perdão: eles só podem dizer onde encontrá-lo. Eles podem colocar diante de você o pão da vida, mas você mesmo é que deve comê-lo. Ele podem lhe mostrar o caminho da paz, mas você mesmo deve andar por ele. O sacerdote judeu não tem poder para limpar o leproso, mas somente declará-lo limpo. O ministro Cristão não tem poder para perdoar pecados; ele pode somente declarar e pronunciar quem são os que estão perdoados.

Você se voltará para os sacramentos e ordenanças, e confiará neles? Eles não podem lhe ministrar perdão, mesmo que você diligentemente utilize-os. Pelos sacramentos, como diz no 27º Artigo sobre o Batismo: “fé é confirmada e a graça aumentada”, em todos que corretamente utilizam os sacramentos[2]. Mas eles não podem justificar o pecador. Eles não podem lançar fora a transgressão. Você poder ir à mesa do Senhor todos os Domingos de sua vida: mas a menos que você olhe muito além do significado disso, depois de tudo, você morrerá em seus pecados. Você pode comparecer a um serviço de culto diário regularmente, mas se você pensa em estabelecer sua justiça própria através disso, no mais mínimo que seja, você somente está se afastando de Deus a cada dia.

Você confiará em suas obras e esforço, em suas virtudes, boas ações, suas orações e suas esmolas? Elas nunca comprarão para você a entrada no céu. Elas nunca pagarão seu débito com Deus. São todas imperfeitas em si mesmas e somente aumentam sua culpa. Não há mérito ou dignidade nelas. O Senhor Jesus Cristo disse expressamente, “depois de haverdes feito tudo quanto vos foi ordenado, dizei: somos servos inúteis” (Lucas 17:10)

Você confiará em seu arrependimento e aperfeiçoamento? Você está muito arrependido pelo passado. Você espera fazer melhor no tempo que virá. Você espera que Deus seja misericordioso. Ai de você, caso repouse nisso; você não tem nada o sustentando, a não ser um junco quebrado! O juiz não perdoa o ladrão porque ele está arrependido do que fez. A tristeza de hoje não apaga a conta dos pecados de ontem. Nem mesmo um oceano de lágrimas poderia limpar uma consciência inquieta e dar paz para ela.

Então, onde um homem deve ir para ser perdoado? Onde o perdão pode ser encontrado? Há um caminho seguro e plano, e dentro desse caminho desejo guiar os passos de cada questionador.

Esse caminho é simplesmente confiar no Senhor Jesus Cristo como seu salvador. É lançar sua alma, com todos seus pecados, incondicionalmente em Cristo – para acabar completamente com a dependência de suas obras e ações, no todo ou em partes, e não repousar em nenhuma outra obra, a não ser a de Cristo, nenhuma outra justiça, a não ser na justiça de Cristo e em nenhum outro mérito, a não ser no mérito de Cristo como o seu fundamento de esperança. Tome esse caminho e você será uma alma perdoada. Pedro disse: “Dele todos os profetas dão testemunho de, por meio do seu nome, todo aquele que nele crê recebe remissão de pecados” (Atos 10:43). “Tomai, pois, irmãos”, Paulo disse em Antioquia, “conhecimento de que se vos anuncia a remissão de pecados por intermédio deste; e por meio dele, todo o que crê é justificado de todas as coisas das quais vós não pudestes ser justificados pela lei de Moisés” (At 13:38,39). “Nele”, escreveu Paulo aos Colossenses, “temos a redenção e a remissão de pecados” (Colossenses 1:14).

O Senhor Jesus Cristo, em grande amor e compaixão, cumpre total e completamente o pagamento pelo pecado, pelo sofrimento da morte em nosso lugar, na cruz. Lá Ele ofereceu a si mesmo como um sacrifício por nós, e permitiu que a ira de Deus, que nós merecíamos, caísse sobre a Sua cabeça. Por nossos pecados, como um Substituto, Ele deu a Si mesmo, sofreu, morreu – o justo pelo injusto, o inocente pelo culpado – Ele pode nos livrar da maldição da quebra da lei e nos dar o completo perdão para todos aqueles que querem recebê-lo.

E por ter feito isso, como Isaías disse, “Ele suportou nossos pecados”; como João Batista disse, “Ele tirou nossos pecados”; como Paulo disse, “Ele purificou nossos pecados” e “aniquilou” nossos pecados; e como Daniel disse, “Ele deu um fim aos pecados e fez cessar a transgressão (Isaías 53:11; João 1:29; Hebreus1:3, Hebreus 9:26; Daniel 9:24).

E agora o Senhor Jesus Cristo está selado e foi exaltado pelo Deus Pai a ser o Príncipe e Salvador, para dar remissão dos pecados de todo àquele que o possui. As chaves da morte e do inferno estão em Suas mãos. O governo dos portões do céu está sobre Seus ombros. Ele próprio é a porta, e quem entrar por Ele será salvo (Atos 5:31; Apocalipse 1:18; João 10:9).

Cristo, em uma palavra, comprou o perdão completo, se nós estamos dispostos recebê-lo. Ele fez tudo, pagou tudo, sofreu tudo que foi necessário para nos reconciliar com Deus. Ele nos forneceu um traje de justiça para nos vestirmos. Ele abriu a fonte das águas da vida para nos lavarmos. Ele removeu toda a barreira entre nós e o Deus Pai, tirou todo obstáculo do caminho, e fez uma estrada pela qual o mais vil pessoa possa retornar. A ação está pronta agora, o pecador só tem que crer e ser salvo, comer e estar satisfeito, pedir e receber, lavar e estar limpo.

Fé, a simples fé, é a única coisa necessária para que você e eu possamos ser perdoados. Nós vamos pela fé até Cristo, como pecadores com nossos pecados, para crer Nele, descansar Nele, depender Dele, confiar Nele, entregar nossa alma a Ele, abandonar todas as outras esperanças e nos apegarmos somente a Ele; isso é tudo que Deus pede. Permita a um homem fazer somente isso e ele será salvo. Suas iniquidades serão encontradas completamente perdoadas, e suas transgressões serão inteiramente removidas. Cada homem e mulher que assim crê são totalmente perdoados, e são considerados perfeitamente justos. Seus pecados são purificados, e suas almas são justificadas aos olhos de Deus, por mais culpados e maldosos que eles possam ter sido.

Fé é a única coisa necessária, não conhecimento. Um homem pode ser um pobre pecador ignorante e conhecer poucos livros. Mas se ele enxerga o suficiente para encontrar os pés da cruz, e confiar em Jesus para a remissão, eu me comprometerei, pela autoridade da Bíblia, que ele não perderá o céu. Conhecer a Cristo é a pedra angular de todo conhecimento religioso.

Fé eu digo, e não conversão. Um homem pode ter andado no caminho largo até o momento que pela primeira vez ouviu o Evangelho. Mas se ouvindo ele acorda para perceber seu perigo, a ponto de querer ser salvo, deixe-o vir para Cristo imediatamente, e não espere nada. Essa vinda é o início da conversão.

Fé, eu repito, e não santidade. Um homem pode se sentir repleto de pecados, e indigno de ser salvo. Mas não o deixe tardar do lado de fora da arca até que ele seja melhor. Deixo-o vir a Cristo sem demora, da maneira em que está. Após isso ele será santo.

Eu convoco cada leitor dessas páginas que não deixe que nada o mova desse forte fundamento, de que a fé em Cristo é a única coisa necessária para nossa justificação. Fique firme aqui, caso você valorize a paz de sua alma. Vejo muitos andando nas trevas e não tendo luz por noções confusas do que a fé é. Eles ouvem que a fé salvadora funcionará através do amor e produzirá santidade, mas eles não encontram todas essas coisas imediatamente em si, e então eles pensam que não têm fé nenhuma. Eles esquecem que essas coisas são frutos da fé, e não a fé em si, e duvidar se temos fé por não vermos os frutos imediatamente, é como duvidar se a árvore está viva por ela não dar frutos no primeiro dia que a plantamos no solo. Eu cobro para que vocês resolvam firmemente em suas mentes isso: que em matéria de perdão e justificação não há senão somente uma coisa necessária, e essa coisa é a simples fé em Cristo.

Bem sei que o coração natural se opõe a essa doutrina. Isso vai contra as noções do homem sobre religião. Ela não o deixa com espaço para se vangloriar. A ideia do homem é vir para Cristo com algo de valor em suas mãos – sua moralidade, sua regularidade, seu arrependimento, sua bondade, e etc – como se fosse com essas coisa comprar seu perdão e justificação. O ensino do Espírito é muito diferente: antes de tudo, é crer. Aquele que crê não perecerá (João 3:16).

Alguns dizem que tal doutrina não pode estar certa, porque faz o caminho para o céu muito fácil. Temo que muitas dessas pessoas, se a verdade for dita, acharão isso muito difícil. Na realidade, acredito ser muito mais fácil dar uma fortuna para construção de uma catedral como a York Minster[3], ou ir para o poste ser queimado, do que receber completamente a “justificação pela fé sem as obras da lei”, e entrar no céu como um pecador salvo pela graça.

Alguns dizem que essa doutrina é tolice e entusiasmo. Eu respondo: isso é exatamente o que foi dito sobre essa doutrina há 1800 anos, e agora é uma crítica vã, como foi antes. Então, longe dessa acusação ser verdadeira, um milhão de fatos pode provar que essa doutrina vem de Deus. Nenhuma outra doutrina tem produzido efeitos poderosos no mundo, como a simples proclamação do perdão gratuito através da fé em Cristo.

Essa é a gloriosa doutrina que foi a força dos apóstolos quando eles foram aos Gentios, para pregarem uma nova religião. Eles começaram com uns poucos pescadores pobres em um canto desprezado da terra. Viraram o mundo de cabeça para baixo. Mudaram a cara do império Romano. Eles esvaziaram os templos pagãos com seus adoradores, e fizeram com que todo o sistema de idolatria se desmoronasse. E qual foi à arma pelas quais eles fizeram tudo isso? Foi o perdão gratuito através da fé em Jesus Cristo.

Foi essa a doutrina que trouxe luz para a Europa há 300 anos, no tempo da abençoada Reforma, e capacitou um monge solitário, Martinho Lutero, abalar toda a Igreja de Roma. Através de sua pregação e escritos as escamas caíram dos olhos dos homens, e as correntes de suas almas se perderam. E qual foi à alavanca que deu poder a ele? Foi o perdão gratuito através da fé em Jesus Cristo.

Essa foi à doutrina que reavivou nossa própria Igreja na metade do último século, quando Whitefield, os Wesley, Berridge e Venn[4] quebraram o miserável “espírito de sonolência” que tinha vindo sobre a terra, e despertou os homens para pensarem. Eles iniciaram um poderoso trabalho, com pouca probabilidade aparente de sucesso. Eles começaram, sendo poucos em número, com pequeno encorajamento dos ricos e dos grandes. Mas eles prosperaram. E por quê? Porque eles pregaram o perdão gratuito através da fé em Cristo.

Essa doutrina que é a verdadeira força de qualquer Igreja na terra nesses dias. Não são os mandamentos, as doações, as liturgias, ou o ensino que mantêm uma Igreja viva. Deixe que o perdão gratuito através de Cristo ser fielmente proclamado em seus púlpitos e os portões do inferno não prevalecerão contra a Igreja. Deixe o perdão gratuito escondido ou retido, e seu castiçal logo será levado. Quando os sarracenos invadiram as terras onde Jerônimo, Atanásio, Cipriano, e Agostinho uma vez escreveram e pregaram, eles encontraram bispos e liturgias, não duvido quanto a isso. Mas eu temo que, eles não encontraram a pregação do perdão gratuito dos pecados, e então eles varreram as Igrejas daquelas terras. Elas eram um corpo sem um princípio vital, então elas caíram. Nunca esqueçamos que os mais brilhantes dias de uma Igreja são aqueles quando o “Cristo crucificado” é o mais exaltado. As tocas e as cavernas da terra, onde os primeiros Cristãos se reuniram para ouvir o amor de Jesus, foram mais repletas de glória aos olhos de Deus, do que nunca foi a Basílica de São Pedro em Roma. O pior celeiro nesses dias, onde o verdadeiro caminho do perdão é oferecido para pecadores, é um lugar muito mais honrado do que a Catedral da Colônia e de Milão. Uma igreja só é útil até o momento em que ela exalta o perdão gratuito através de Cristo.

De todas as outras, essa é a doutrina que é a mais poderosa para demolir o reino de Satanás. Os Groenlandeses ficaram imóveis por muito tempo enquanto os Morávios pregavam a eles sobre a criação e a queda do homem, mas quando eles ouviram do amor redentor, seus corações congelados derreteram como neve no verão. A pregação da salvação pelos sacramentos eleva a Igreja acima de Cristo, e traz de volta a doutrina do Purgatório, e o diabo pouco se preocupa, seus bens estão em paz. Mas pregue completamente a Cristo e o perdão gratuito pela fé Nele, e então Satanás terá grande ira, pois ele sabe que tem pouco tempo. John Berridge disse estava pregando moralidade e nada mais, até que não havia nenhum homem moral em sua igreja. Mas quando mudou seu plano, ele começou a pregar o amor de Cristo para pecadores e a salvação gratuita pela fé; então houve uma empolgação nos ossos secos, e um poderoso voltar-se a Deus.

Essa é a única doutrina que sempre trará paz para uma consciência perturbada e descanso para uma alma conturbada. Um homem pode ficar bem sem ela se estiver dormindo com relação a sua condição espiritual. Mas, uma vez que ele tenha acordado de sua sonolência, nada acalmará ele a não ser o sangue da Expiação e a paz que vem da fé em Cristo. Como alguém pode aceitar ser um ministro da religião sem uma firme compreensão dessa doutrina, eu nunca poderei entender. Para mim, só posso dizer que meu ofício seria o mais doloroso se eu não tivesse a mensagem do perdão gratuito para transmitir. De fato, visitar doentes e os que estão morrendo seria um trabalho miserável se eu não pudesse dizer: “Eis o Cordeiro de Deus – creia no Senhor Jesus Cristo e será salvo”. A destra de um ministro Cristão é a doutrina do perdão gratuito através da fé em Cristo. Nos dê essa doutrina e nós teremos poder: nunca nos afligiremos de fazer o bem para a alma dos homens. Lance fora essa doutrina e seremos fracos como água. Poderíamos ler as orações e passar por uma série de formulários, mas seríamos como Sansão despojado de seu cabelo: nossa força iria embora. As almas não serão beneficiadas por nós e o bem não será feito.

Eu recomendo as coisas que tenho dito para a nota de cada de leitor. Não me envergonho do livre perdão através da fé em Cristo, embora alguns possam falar contra essa doutrina. Não me envergonho dela, pois seus frutos falam por si. Ela tem feito coisas que nenhuma outra doutrina pode fazer. Ela tem efetuado mudanças morais que as leis e punições têm falhado em executar, que os magistrados e a polícia têm trabalhado em vão, e que institutos mecânicos e o conhecimento secular têm sido completamente incapazes de produzir. Assim como os lunáticos mais ferozes do Bethlem Royal Hospital de repente se tornaram gentis quando foram bem tratados, os piores e mais endurecidos pecadores se tornam como crianças quando é dito que Jesus os ama e está disposto a perdoá-los. Eu posso entender bem Paulo terminando sua epístola aos Gálatas desviados com aquela explosão solene de sentimentos: “Mas longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo” (Gálatas 6:14). A coroa cai da cabeça de um Cristão quando ele larga a doutrina da justificação pela fé.

Você deve questionar a si mesmo se realmente tem recebido a verdade em que eu tenho habitado e que conheço por experiência. Jesus, e a fé Nele, são o único caminho para o Pai. Aquele que pensa subir ao Paraíso por alguma outra estrada, achará a si mesmo, terrivelmente enganado. Nenhum outro alicerce pode ser lançado para uma alma imortal além desse em que tenho sido um débil expositor. Aquele que se aventura aqui está seguro. Aquele que está fora dessa rocha, não tem nenhum solo abaixo de si.

Você deve considerar seriamente que tipo de ministério você está habituado a frequentar, supondo que você tem uma escolha. De fato, você tem razões para ser cuidadoso. Não é tudo a mesma coisa, independente do que as pessoas possam dizer. Eu temo que existam muitos lugares de adoração onde se possa ver por muito tempo o Cristo crucificado, e nunca encontrá-lo. Ele está escondido debaixo de cerimônias exteriores, empurrado para trás da fonte batismal e perdido de vista sob a sombra da Igreja. “… levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram” (Jo 20:13). Tenha cautela onde você se acomoda. Teste tudo através desse simples teste: “Jesus e o perdão gratuito é proclamado aqui?”. Pode haver bancos confortáveis, pode ter uma boa música e ter sermões sábios. Mas se o Evangelho de Cristo não é o sol e o centro de todo o lugar, não arme sua tenda lá. Antes, diga junto com Isaque: “Eis o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto?”(Gn 22:7). Esteja muito seguro de que esse não é o lugar para sua alma.

 

III. Deixe-me, em terceiro lugar, encorajar todos aqueles que desejam ser perdoados.

Ouso ter a certeza de que esse artigo será lido por alguém que sente que ainda não é uma alma perdoada. Meu desejo e oração é que essa pessoa possa buscar seu perdão de uma vez. E eu gostaria de bom grado ajudá-lo a ir em frente, mostrando a ele o tipo de perdão oferecido a ele, e os privilégios maravilhosos que estão ao seu alcance.

Então, ouça-me enquanto tento mostrar a você os tesouros do Evangelho do perdão. Não posso descrever sua plenitude como eu deveria. Suas riquezas são de fato, inescrutáveis (Efésios 3:8). Mas se você se afastar dele, não será capaz de dizer no dia do julgamento, que não sabia de tudo sobre o que esse perdão é.

Considere que o perdão colocado diante de ti é um grande e amplo perdão. Ouça o que o Príncipe da Paz declara: “Em verdade vos digo que tudo será perdoado aos filhos dos homens: os pecados e as blasfêmias que proferiram” (Marcos 3:28). “Ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve, ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a lã” (Isaías 1:18). Sim: embora suas transgressões sejam mais numerosas do que os cabelos de sua cabeça, do que as estrelas do céu, do que as folhas da floresta, do que as folhas da relva, do que os grãos de areia da praia, todas ainda podem ser perdoadas! Assim como as águas do dilúvio de Noé ultrapassaram e esconderam os picos dos mais altos montes, o sangue de Jesus cobre seus pecados mais poderosos. “E o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado” (1 João 1:7). Embora para você, seus pecados pareçam escritos com ponta de diamante, todos eles podem ser apagados do livro da memória de Deus através desse precioso sangue. Paulo nomeia uma longa lista de abominações que os Coríntios haviam cometido e então ele diz: “Tais fostes alguns de vós; mas vós vos lavastes” (1 Coríntios 6:11).

Além disso, esse é um pleno e completo perdão. Não é como o perdão de Davi para Absalão – uma permissão para retornar para casa, mas não uma completa restauração da benevolência (2 Samuel 14:24). Não é como alguns pensam, só um mero “deixa pra lá” e um “não levar em conta”. É um perdão tão completo que aquele que o tem é tido como justo, tanto quanto se não houvesse pecado de forma alguma! Suas iniquidades são apagadas. Elas são removidas deste, assim como o leste está distante do oeste (Salmo 103:12). Não há condenação para ele. O Pai o vê como unido a Cristo, e fica satisfeito. O Filho o vê vestido com Sua própria justiça, e diz, “tu és formosa, querida minha, e em ti não há defeito” (Cantares 4:7). Bendito seja Deus por ser dessa forma! Eu verdadeiramente acredito que se o melhor de todos nós tivesse apenas uma mácula para varrer de si, ele perderia a vida eterna. Se o mais santo filho de Adão estivesse no céu plenamente, mas sem seu dedo mindinho e para trazê-lo dependesse de si mesmo, estou certo de que ele nunca entraria no reino. Se Noé, Daniel e Jó tivessem somente um dia de seus pecados para lavar, eles nunca teriam sido salvos. Louvado seja Deus, que em relação ao perdão não há nada que o homem possa fazer! Jesus fez tudo e o homem só tem que estender uma mão vazia e receber.

Além do mais, é um perdão espontâneo e incondicional. Não é sobrecarregado com um “se”, como o perdão de Salomão para Adonias: “Se você for um homem de bem, nenhum dos seus cabelos cairá em terra” (1 Reis 1:52). Você não é obrigado a trazer um valor em suas mãos, ou trazer um tipo de caráter para provar-se merecedor de misericórdia. Jesus requer só um tipo de caráter, aquele em que você deve sentir-se um pecador, um homem mal. Ele lhe convida para “comprar vinho e leite sem dinheiro e sem preço”, e declara, “aquele que quiser receba de graça a água da vida” (Isaías 55:1; Apocalipse 22:17). Como Davi na caverna de Adulão, Ele recebe todo aquele que se sente aflito e devedor, e não rejeita ninguém (1 Samuel 22:2). Você é um pecador? Você quer um Salvador? Então venha para Jesus do jeito que está e sua alma viverá.

Novamente, é um perdão ofertado. Tenho lido sobre reis mundanos que não souberam como mostrar misericórdia; sobre Henrique VIII da Inglaterra que não poupou nenhum homem ou mulher; sobre Tiago V da Escócia, que nunca mostrou favor para um “Douglas”. O Rei dos reis não é como eles. Ele chama o homem para vir a Ele, e ser perdoado. “A vós outros, ó homens, clamo; e minha voz se dirige aos filhos dos homens” (Provérbios 8:4). “Ah! Todos vós, os que tendes sede, vinde às águas” (Isaías 55:1). “Se alguém tem sede, venha a mim e beba” (João 7:37). “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mateus 11:28). Deve ser um grande conforto para mim e para você ouvir sobre qualquer perdão, de qualquer maneira; mas ouvir o próprio Jesus nos convidando, para vê-lo estendendo Sua mão para nós – o Salvador buscando o pecador antes de o pecador buscar o Salvador, isso é encorajador, isso de fato é uma forte consolação.

De novo, é um perdão de boa vontade. Tenho escutado sobre perdões concedidos em resposta a uma longa súplica, e espremidos por muita importunação. O Rei Eduardo III da Inglaterra não poupava os cidadãos de Calais, até que eles viessem com cabrestos no pescoço e a Rainha intercedesse por eles sobre seus joelhos. Mas Jesus “é bom e disposto a perdoar” (Salmo 86:5). Ele “tem prazer na misericórdia” (Miquéias 7:18). Julgamento é “Sua estranha obra”. Ele não deseja que qualquer um pereça (Isaías 28:21; 2 Pedro 3:9). Ele deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem a pleno conhecimento da verdade (1 Timóteo 2:4). Ele chorou por causa da incredulidade em Jerusalém. “Tão certo como Eu vivo”, Ele diz, “não tenho prazer na morte do perverso” (Ezequiel 33:11). Você e eu bem podemos nos achegar com confiança ao trono da graça. Aquele que está assentado lá tem muito mais desejo e disposição para a misericórdia do que nós temos para recebê-la (Hebreus 4:16).

Além disso, é um perdão provado. Milhares e dezenas de milhares têm pedido por perdão no trono de misericórdia de Cristo, e nenhum deles retornou para dizer que pediu em vão. Pecadores de todo nome e nação – pecadores de todo tipo e descrição – têm batido na porta, e a ninguém tem sido recusada a admissão. Zaqueu o publicano, Madalena a prostituta, Saulo o perseguidor, Pedro o negador do Senhor, os judeus que crucificaram o Príncipe da Vida, os idólatras Atenienses, os adúlteros Coríntios, os ignorantes Africanos, os sanguinários neozelandeses, todos tem arriscado suas almas nas promessas de perdão de Cristo, e ninguém jamais os encontrou falidos. Se o caminho que o Evangelho coloca diante de nós fosse um caminho novo e sem condições de viajem, bem poderíamos ficar acovardados. Mas não é. É um velho caminho. É um caminho gasto pelos pés de muitos peregrinos e um caminho em que todas as pegadas vão a uma única direção. Os tesouros das misericórdias de Cristo nunca estiveram vazios. O poço de águas vivas nunca se demonstrou vazio.

Além disso, é um perdão presente. Todos que creem em Cristo estão de uma vez justificados de todas as coisas (Atos 13:39). O dia que o filho mais novo retornou a casa de seu pai, foi vestido com a melhor túnica, teve um anel colocado em sua mão e um calçado para seus pés (Lucas 15). O dia que Zaqueu recebeu Jesus, ele ouviu aquelas confortáveis palavras, “esse é o dia em que a salvação veio a essa casa” (Lucas 19:9). O dia em que Davi disse, “tenho pecado contra o Senhor”, foi falado por Natã, “o Senhor perdoou todo teu pecado” (2 Samuel 12:13). O primeiro dia em que você fugiu para Cristo, todos seus pecados foram removidos. Seu perdão não é uma coisa distante para ser obtida somente depois de muitos anos. Está ao alcance das suas mãos. Está perto de você, ao seu alcance, pronto para ser concedido. Creia, e que esse momento seja seu. “Aquele que crê não é condenado” (João 3:18). Não diz, “aquele que crê não deve ser”, “não será”, mas diz “não é”. No momento em que você crer, a condenação se vai. “Aquele que crê tem a vida eterna” (João 3:36). Não diz que, “aquele que crê deve ter a vida eterna”, ou “terá”, mas diz “tem”. Essa vida é daquele que crê tão seguramente como se ele já estivesse no céu, embora não esteja tão evidente aos seus próprios olhos. Você não deve pensar que o perdão estará mais próximo ao crente no dia do julgamento do que na hora em que ele acreditou pela primeira vez. A completa salvação do poder do pecado está todo ano mais e mais próxima dele; mas quanto a seu perdão, justificação e libertação da culpa do pecado são obras finalizadas desde o primeiro minuto em que ele entregou-se a Cristo.

Por último, e o melhor de tudo, é um perdão eterno. Não é como o perdão de Simei – um perdão que pode por vezes ser revogado e retirado (1 Reis 2:9). Uma vez justificado, você está justificado para sempre. Uma vez inscrito no livro da vida, seu nome nunca deverá ser apagado. Os pecados dos filhos de Deus são lançados nas profundezas do mar – para serem buscados e não encontrados, para não mais serem lembrados, para serem lançados as costas de Deus. (Miquéias 7:9; Jeremias 1:20, 31:34; Isaías 38:17). Algumas pessoas imaginam que elas podem ser justificadas em um ano e condenadas em outro – filhos da adoção em um período, e um estranho logo em seguida, herdeiros do reino no começo de seus dias, e servos do diabo no fim deles. Eu não consigo achar isso na Bíblia – como um neozelandês disse a um padre católico romano: “Eu não vejo isso no Livro”. Isso me parece arruinar a boas novas do Evangelho, e arranca o conforto do Evangelho pelas raízes. Creio que a salvação que Jesus oferece é uma salvação eterna, e um perdão selado de uma só vez com Seu sangue não pode ser revogado.

Coloquei diante de você a natureza do perdão que lhe é oferecido. Mas tenho falado somente um pouco sobre isso, pois minhas palavras são mais fracas do que a minha vontade. Metade ainda permanece não dita. A grandeza desse perdão está muito além de qualquer relato meu. Mas penso que disse o bastante para lhe mostrar que esse perdão é digno de ser buscado, e eu não posso lhe desejar nada além de que você possa lutar para torná-lo seu.

Você considera como nada olhar a frente para a morte, sem medo, para o julgamento sem dúvidas, e para eternidade sem um aperto no coração? Você chama de nada sentir o mundo desmoronando ao seu redor, ver a cova pronta para você e o vale da sombra da morte se abrindo diante de seus olhos, e ainda não estar amedrontado? Você considera como nada estar apto a pensar sobre aquele grande dia de prestação de contas, do trono, os livros, o Juiz, o mundo reunido, os segredos revelados, a sentença final e ainda sentir “eu estou seguro”? Essa é a porção e esse é o privilégio de uma alma perdoada.

Assim como alguém que está em uma rocha, quando a chuva da ira de Deus descer, a inundação chegar, os ventos soprarem, seus pés não deslizarão, sua habitação será certa.

Assim como alguém que está em uma arca, quando o último dilúvio de fogo estiver varrendo todas as coisas da superfície da terra, nada o atingirá. Ele será apanhado e levado em segurança sobre tudo isso.

Tal como alguém que está em um lugar escondido, quando Deus vier julgar terrivelmente a terra, e os homens pedirem para as rochas e montanhas caírem sobre eles e cobri-los, os Braços Eternos serão lançados ao redor dele, e a tempestade passara sobre a sua cabeça. Ele “descansará a sombra do Onipotente” (Salmo 91:1).

Tal como alguém que está em uma cidade refúgio, o acusador não pode lançar nenhuma acusação sobre ele. A lei não pode condená-lo. Há um muro entre ele e o vingador de sangue. Os inimigos de sua alma não podem machucá-lo. Ele é um santuário seguro.

Tal como alguém rico, ele tem um tesouro no céu que não pode ser afetado por mudanças mundanas, se comparado com o Peru e com a Califórnia que nada são. Ele não inveja os mercadores e banqueiros mais ricos. Ele tem uma porção que resistirá quando as notas e soberanias forem coisas inúteis. Ele pode dizer, assim como o embaixador Espanhol, quando mostrou o tesouro em Veneza, “Meu tesouro, Mestre, não tem fundo”. Ele tem Cristo.

Tal como alguém segurado, ele está pronto para qualquer coisa que possa acontecer. Nada pode prejudicá-lo. Bancos podem quebrar e Governos podem ser quebrados. Fome e peste podem se enfurecer ao seu redor. Doenças e tristezas podem visitar o seu próprio lar. Mas ele ainda está pronto para tudo – pronto para saúde, pronto para doença, pronto para as lágrimas, pronto para alegria, pronto para pobreza, pronto para plenitude, pronto para vida, pronto para morte. Ele tem Cristo. Ele é uma alma perdoada. “Bem-aventurado”, de fato, “é aquele cuja transgressão é perdoada e cujo pecado é perdoado” (Salmo 32:1).

Como alguém escapará se negligenciar tão grande salvação (Hebreus 2:3)? Porque você não lança mão dela de uma vez, e diga: “perdoe-me a mim também, oh meu Salvador!” O que você teria se o caminho que coloco diante de você não satisfaz? Venha enquanto a porta está aberta. Peça e você receberá.

IV. Deixe-me, em último lugar, suprir os leitores desse artigo com algumas marcas de quem tem encontrado o perdão.

Eu incito você a não ignorar esse ponto. Muitos presumem que estão perdoados dos quais não tem evidências para apresentar. Não são poucos os que pensam não ser possível serem perdoados, dos quais claramente estão no caminho do céu, embora eles não possam ver isso em si. Eu de bom grado suscito esperança em alguns e auto-análise em outros; e para fazer isso, deixe-me colocar em ordem as marcas de uma alma perdoada.

(a) Almas perdoadas odeiam o pecado. Elas podem entrar mais plenamente nas palavras de nossa Comunhão: “A lembrança do pecado é dolorosa para elas, e o fardo disso é intolerável”. É a serpente que as picou: como não se encolheriam com horror diante do pecado? É o veneno que os trouxe à beira da morte eterna, como não abominariam como um desgosto piedoso? É o inimigo Egípcio que as manteve em um duro cativeiro, quão amarga não seria a memória disso aos seus corações? É a doença que traz as marcas e cicatrizes que elas carregam sobre si, das quais elas mal tem se recuperado: bem poderiam ter temido essa doença, fugido dela e há muito terem sido libertas de todo seu poder! Lembre-se como a mulher na casa de Simão chorou sobre os pés de Jesus (Lucas 7:38). Lembre-se como os Efésios queimaram publicamente seus livros imorais (Atos 19:19). Lembre-se de como Paulo lamentou suas transgressões juvenis: “Porque eu sou o menor dos apóstolos, que mesmo não sou digno de ser chamado de apóstolo, pois persegui a igreja de Deus” (1 Coríntios 15:9). Se você e o pecado são amigos, você e Deus ainda não estão reconciliados. Você não se encontra no céu; pois uma parte principal da excelência do céu é a ausência de todo pecado.

 

(b) Almas perdoadas amam a Cristo. Essa é a única coisa que elas podem dizer, se não ousassem dizer nada mais – que elas amam a Cristo. Sua pessoa, Seu ofício, Sua obra, Seu nome, Sua cruz, Seu sangue, Suas palavras, Seu exemplo, Seu dia, Suas ordens, tudo, tudo isso é precioso para almas perdoadas. O ministério que mais O exalta é aquele que elas mais se alegram. Os livros que são mais cheios Dele são os mais agradáveis a suas mentes. As pessoas na terra que elas se sentem mais atraídas são aquelas nas quais elas vem algo de Cristo. Seu nome é como unguento derramado e vem como um doce peculiar aos seus ouvidos (Cantares 1:3). Elas dizem que não podem deixar de sentir-se como se sentem. Ele é seu Redentor, seu Pastor, seu Médico, seu Rei, seu forte Libertador, seu guia Gracioso, sua esperança, sua alegria, seu tudo. Se não fosse por Ele, elas seriam as mais miseráveis de todas as almas. Elas rapidamente consentiriam que você deve ter tirado o sol do céu se Cristo fosse retirado de sua religião. Aquelas pessoas que falam “o Senhor”, “Todo-Poderoso”, “a Divindade”, e assim por diante, mas não tem uma palavra para falar a respeito de Cristo, estão de qualquer outra forma, menos em um estado correto de suas mentes. O que diz a Escritura? “Quem não honra o Filho, não honra o Pai que o enviou” (João 5:23). “Se alguém não ama o Senhor, seja anátema” (1 Coríntios 16:22).

 

(c) Almas perdoadas são humildes. Elas não conseguem se esquecer de que devem tudo que possuem e que esperam, à graça gratuita, e isso as mantém humildes. Elas são o tição tirado do fogo, devedoras que não podem pagar por si mesmo, cativas que deveriam ter permanecido na prisão para sempre, se não fosse pela misericórdia imerecida; as ovelhas errantes que estavam prontas para perecer, quando o Pastor as encontrou; e qual direito elas tem para se orgulharem? Não nego que existem santos orgulhosos. Mas disso eu digo: de todas as criaturas de Deus, eles são os mais inconsistentes, e de todos os filhos de Deus são os mais propensos a tropeçar e a perfurar-se com muitas tristezas. Perdão muitas vezes produz o espírito de Jacó: “Sou indigno de todas a misericórdias e de toda a fidelidade que tens usado para com seu servo” (Gênesis 32:10). E de Ezequias: “… passarei tranquilamente por todos os meus anos” (Gn 38:15). E do apóstolo Paulo: “A mim, o menor de todos os santos”, “o principal dos pecadores” (Efésios 3:8; 1 Timóteo 1:15). Quando você e eu não temos nada que possamos chamar de nosso, a não ser o pecado e a fraqueza, certamente não haverá vestimenta que nos vista tão bem quanto à humildade.

(d) Almas perdoadas são santas. Seu desejo maior é agradar Aquele que as tem salvado, fazer Sua vontade, glorificá-Lo no corpo e no Espírito, que são Seus. “Que darei ao Senhor por todos os seus benefícios?” (Salmos 116:12), é um princípio primordial em um coração perdoado. Foi a lembrança de Jesus mostrando misericórdia que fez de Paulo tão abundante nas obras e a fazer o bem de forma tão incansável. Foi a sensação de perdão que fez Zaqueu dizer: “Senhor, resolvo dar aos pobres a metade dos bens; e, se nalguma coisa tendo defraudado alguém, restituo quatro vezes mais” (Lucas 19:8). Se alguém me mostra crentes que estão em estado de alma carnal e preguiçoso, eu respondo com as palavras de Pedro: “… eles têm se esquecido da purificação dos seus pecados de outrora” (2 Pedro 1:9). Mas se você me mostra um homem vivendo deliberadamente uma vida pecaminosa, licenciosa e ainda ostentando que seus pecados foram perdoados, eu respondo: “Ele está sob uma ilusão arruinadora e não é perdoado de jeito nenhum”. Eu não creria que ele foi perdoado nem que um anjo do céu afirmasse isso, e te conjuro que não acredite também. Perdão de pecados e amor ao pecado são como óleo e água – nunca irão se misturar. Todos que são lavados no sangue de Cristo são também santificados pelo Espírito de Cristo.

(e) Almas perdoadas são inclinadas ao perdão. Elas fazem da mesma forma que tem sido feito por elas. Elas perdoam as ofensas de seus irmãos. Elas se esforçam para “andar em amor, como também Cristo nos amou e se entregou a si mesmo por elas” (Efésios 5:2). Elas se lembram como Deus por amor de Cristo as perdoou, e se esforçam para fazer o mesmo com as Suas criaturas caídas. Ele tem perdoado aos milhões, e elas não perdoariam alguns centavos? Sem dúvida, também nisso, assim como em todas as outras coisas, elas são ineficientes, mas esse é seu desejo e a sua meta. Um Cristão brigão e rancoroso é um escândalo para sua profissão de fé. É muito difícil acreditar que tal pessoa já se assentou aos pés da cruz, e que já tenha considerado como está orando contra si mesmo a Oração do Senhor. Não é como se ele estivesse dizendo, “Pai, não perdoe minhas dívidas de jeito nenhum”? Mas é ainda mais difícil entender o que tal pessoa poderia fazer no céu, se ele chegar lá. Todas as ideias sobre céu, nas quais o perdão não tenha lugar, são como castelo no ar e vãs fantasias. Perdão é o caminho pelo qual cada alma entra no céu. Perdão é o único título pelo qual alguém permanece no céu. Perdão é o assunto eterno do cântico de todos redimidos que habitam no céu. Certamente, uma alma não perdoada no céu encontraria seu coração completamente fora de sintonia. Com certeza, não sabemos nada do amor de Cristo para nós, senão de nome, caso não amemos nossos irmãos.

Lanço essas coisas diante de cada leitor desse sermão. Bem sei que há uma grande diversidade na realização dos homens na graça e que a fé salvadora em Cristo é consistente com muitas imperfeições. Mas ainda acredito nas cinco marcas que tenho somente nomeado e geralmente serão encontradas em maior ou menor grau em todas as almas perdoadas.

Não posso esconder de vocês que essas marcas devem surgir na maioria dos grandes exames do coração. Devo ser claro. Temo que existem milhares de pessoas chamadas Cristãs que nada sabem sobre essas marcas. Elas são batizadas. Elas tratam dos serviços de suas Igrejas. Elas não seriam em qualquer descrição reconhecidas como infiéis. Mas quanto ao verdadeiro arrependimento, fé salvadora, união com Cristo e a santificação do Espírito, são somente “nomes e palavras” das quais elas nada sabem.

Agora se esse artigo é lido por tais pessoas, provavelmente irá alertá-los, ou marcá-los com muita raiva. Se isso os deixa irados, me arrependo. Se isso os alerta, fico contente. Quero alertá-los. Quero acordá-los do seu presente estado. Quero levá-los para o grande fato de que eles ainda não estão perdoados, de que eles ainda não têm paz com Deus, e estão na estrada para destruição.

Devo dizer isso, não vejo alternativa. Essas marcas não se parecem nem com a fidelidade Cristã, nem com a caridade Cristã. Vejo certas marcas de almas perdoadas estabelecidas nas escrituras. Vejo uma absoluta carência dessas marcas em muitos homens e mulheres ao meu redor. Como eu poderia evitar a conclusão de que eles ainda não são “perdoados”? E como eu deveria fazer o trabalho de um vigia fiel se não escrevendo claramente em tantas palavras? Onde está o clamor de “Paz! Paz!” quando não há paz? Onde está a honestidade de atuar ao lado de um médico mentiroso, e dizer às pessoas que não há perigo, quando na realidade elas estão rapidamente se aproximando da morte eterna? Certamente, o sangue das almas seria requerido das minhas mãos se eu escrevesse para você qualquer coisa que não a verdade. “Pois se a trombeta der som incerto, quem se preparará para batalha?” (1 Coríntios 14:8).

Então, examine a si mesmo, antes que esse assunto seja esquecido. Considere que tipo de religião é essa. Tente isso através das cinco marcas que tenho colocado diante de você. Tenho me esforçado para torná-las tão amplas e claras quanto eu posso, por medo de entristecer qualquer coração que Deus não tenha entristecido. Se você conhecer qualquer coisa sobre essas marcas, embora seja só um pouco, sou grato, e te suplico a ir adiante. Mas se você não sabe nada sobre elas a partir de sua própria experiência, deixe-me dizer, com toda afeição, fico em dúvidas sobre você. Eu tremo por sua alma.

1. E agora, antes de concluir, deixe-me colocar uma questão familiar para todos leitores desse artigo. Ela será curta e clara, mas é muito importante: “Você é perdoado?”

Tenho dito tudo o que posso sobre o perdão. Sua necessidade de perdão, o caminho para o perdão, os encorajamentos de buscar o perdão, as marcas de tê-lo encontrado, enfim, tudo tem sido colocado diante de vocês. Conduza todo o assunto para que recaia sobre seu próprio coração, e pergunte a si mesmo: “Sou perdoado? Ou sou, ou não sou. Qual desses dois?”

Você acredita que talvez, haja perdão de pecados. Você acredita que Cristo morreu por pecadores, e que Ele ofereceu perdão até mesmo para o maior ímpio. Mas você mesmo está perdoado? Você já se prendeu a Cristo pela fé e encontrou paz através de Seu sangue? Que proveito há para você no perdão, se você não puder usufruir os benefícios dele? De que adianta a um náufrago que está com o bote ao lado, se ele ficar no naufrágio sem pular e se salvar? Que proveito há se o médico receita um remédio a um doente, caso ele olhe o remédio e não toma? A não ser que você se preocupe continuamente com sua própria alma, você certamente estará tão perdido como se não houvesse perdão de forma alguma.

Se alguma vez seus pecados foram perdoados, isso precisa ser assim também agora; agora nessa vida, e também na vida porvir; se estão apagados agora nesse mundo, também serão assim quando Jesus vier novamente segunda vez. Precisa haver assuntos atuais entre você e Cristo. Seus pecados precisam ser lançados sobre Ele pela fé: a justiça Dele dever ser lançada sobre você. Seu sangue deve ser aplicado a sua consciência ou senão seus pecados encontrarão você no dia do julgamento e o afundarão no inferno. Oh, como você pode brincar quando tais coisas estão em jogo? Como você pode estar satisfeito em deixar incerto se você é perdoado ou não? Certamente um homem pode fazer sua vontade, assegurar sua vida, dar direções sobre seu funeral, e mesmo assim deixar os assuntos de sua alma na incerteza, e isso de fato é uma coisa intrigante.

2. Deixe-me a seguir dar um aviso solene para cada um que lê esse sermão e sabe em sua consciência que não está perdoado.

Sua alma está em perigo terrível. Você pode morrer nesse ano. E se você morrer como da forma que está, estará perdido para sempre. Se você morrer sem perdão, sem perdão também você ressuscitará no último dia. Há uma espada em sua cabeça que está por um fio de cabelo. Há somente um passo entre você e a morte. Oh, eu me impressiono que você possa dormir tão silenciosamente em sua cama!

Você que ainda não é perdoado. Então, o que você obteve de sua religião? Você vai à igreja, você tem uma Bíblia, você tem um Livro de Orações, e talvez um Hinário. Você ouve sermões, você se junta aos serviços. Talvez você até vá a Mesa do Senhor. Mas o que você realmente obteve depois de tudo? Alguma esperança? Alguma paz? Alguma alegria? Algum conforto? Nada: literalmente nada! Você não obteve nada, a não ser coisas meramente temporais, caso você não seja uma alma perdoada.

Você ainda não é perdoado. Mas confia que Deus será misericordioso. No entanto, porque Ele deveria ser misericordioso se você não O busca no próprio caminho apontado por Ele? Misericordioso, sem dúvida Ele é, maravilhosamente misericordioso para todos aqueles que vêm a Ele no nome de Jesus. Mas se você escolhe desprezar Suas direções e faz uma estrada para o céu por si mesmo, você encontrará às suas custas que não há misericórdia para você.

Você não é ainda perdoado. No entanto, espera que será algum dia. Não posso suportar tal expressão. É como empurrar para longe a consciência e agarrá-la pelo pescoço para silenciar sua voz. Por que é mais provável que você busque perdão em um tempo futuro? Por que você não deve buscar agora? Agora é a hora de colher o pão da vida. O dia do Senhor está rapidamente se aproximando e então nenhum homem poderá trabalhar para colhê-lo (Êxodo 16:26). A sétima trombeta em breve soará. Os reinos do mundo em breve se tornarão de nosso Senhor e Seu Cristo (Apocalipse 11:15). Ai da casa que se encontra sem o fio escarlata e sem a marca de sangue na porta (Josué 2:18; Êxodo 12:13).

Bem, você pode não perceber sua necessidade de perdão agora. Mas pode vir um tempo em que você irá desejá-la. O Senhor em misericórdia conceda a você que não seja tarde demais.

3. Deixe-me fazer um solene convite para todos os que leem esse sermão e desejam perdão.

Não sei quem você é, ou o que foi no passado, mas digo enfaticamente, venha para Cristo pela fé, e você terá o perdão. Alto ou baixo, rico ou pobre, rapazes e donzelas, velhos e crianças, vocês não podem estar piores do que Paulo e Manassés antes da conversão, ou do que Davi e Pedro depois da conversão: venham todos para Cristo e vocês serão gratuitamente perdoados.

Nem por um momento pense que você tem alguma grande coisa para fazer antes de vir a Cristo. Tal noção é da terra, é mundana; o Evangelho te propõe a vir assim como está, a ideia do Homem é fazer a paz com Deus pelo arrependimento, e então vir a Cristo no fim: o caminho do Evangelho é receber a paz de Cristo primeiro de tudo e começar com Ele. O Homem tem a ideia de se corrigir, se transformar em uma folha nova e então fazer seu caminho de reconciliação e amizade com Deus: o caminho do Evangelho é primeiro se tornar amigo de Deus através de Cristo, e só depois trabalhar. O homem tem a ideia de se fadigar na montanha e encontrar vida só no topo: o caminho do Evangelho é primeiro viver pela fé em Cristo, e só então fazer Sua vontade.

Julgai, cada um de vocês julgue: o que é o verdadeiro Cristianismo? Quais são as boas notícias? Quais são as boas novas? Primeiro os frutos do Espírito e depois a paz, ou a paz e depois os frutos do Espírito? Primeiro a santificação e então o perdão ou primeiro perdão e depois santificação? Primeiro serviço, depois vida, ou primeiro vida e então o serviço? Seus corações bem podem suprir essas respostas.

Então venha desejando receber, e não pensando o quanto você pode trazer. Venha, desejando pegar o que Cristo lhe oferece, e não imaginando que você possa dar qualquer coisa em troca. Venha com seus pecados, e nenhuma outra qualificação a não ser um desejo de perdão, e tão certo como a verdade da Bíblia, você será salvo.

Você pode me dizer que não é digno, que não é bom o bastante e que não é eleito. Eu respondo: Você é um pecador e precisa ser salvo, o que mais você poderia querer? Você é um daqueles que Jesus veio para salvar. Venha para Ele e você terá vida. Tome as suas palavras e Ele ouvirá graciosamente. Diga a Ele todas as necessidades de sua alma e do que conheço da Bíblia, afirmo que Ele lhe dará atenção. Diga a Ele que você tem ouvido que Ele recebe pecadores, e que você é como um destes. Diga a Ele que você tem ouvido que Ele tem as chaves da vida em Suas mãos, e suplique para que Ele o deixe entrar. Diga a Ele que você vem em dependência de Suas promessas, peça a Ele para cumprir Sua palavra e “fazer como Ele disse” (2 Samuel 7:25). Faça isso em simplicidade e sinceridade, e dou minha alma pela sua, que você não pedirá em vão. Faça isso e você encontrará Nele fidelidade e justiça para perdoar seus pecados, e para limpar você de toda impureza (1 João 1:9).

4. Último de tudo deixe-me dar uma palavra de exortação para todas as almas perdoadas.

Vocês estão perdoados. Então conheçam a plena extensão de seus privilégios e aprendam a se alegrar no Senhor. Você e eu somos grandes pecadores, no entanto temos um grande Salvador. Você e eu temos pecados que estão no passado do velho homem, mas agora nós temos o “amor de Cristo, que excede todo entendimento” para descansarmos (Efésios 3:19). Você e eu sentimos que nossos corações são uma fonte borbulhante de mal, mas nós temos outra fonte de maior poder no sangue de Cristo, a qual nós podemos nos refugiar diariamente. Você e eu temos inimigos poderosos para lutar, mas o “Capitão da nossa salvação” ainda é mais poderoso, e sempre estará conosco. Por que os nossos corações deveriam estar incomodados? Por que ficamos inquietos e humilhados? Oh, homens e mulheres de pouca fé que somos. Por que duvidamos?

Lutemos a cada ano para crescer na graça e no conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo. É triste se contentar com um pouco de religião. É honroso desejar os melhores dons. Não devemos nos satisfazer com o mesmo tipo de questionamento, leitura e oração que nos satisfizeram anos passados. Devemos trabalhar a cada ano para lançar mais amor e realidade em tudo que fazemos em nossa religião. Amar a Cristo mais intensamente, abominar o mal mais profundamente, apegar-se ao que é bom mais intimamente, observar até mesmo nossos mínimos caminhos mais estreitamente, declarar muito claramente que buscamos uma nação; nos coloquemos no Senhor Jesus Cristo e nos revistemos Dele em cada lugar e companhia, ver mais, sentir mais, conhecer mais, fazer mais; esses devem ser nossos objetivos e desejos a cada começo de ano. Verdadeiramente, há espaço para melhorias em todos nós.

Vamos tentar fazer o bem para a alma de outros, mais do que temos feito até agora. De fato, infelizmente, é um trabalho pobre ser engolido por nossas preocupações espirituais e nos prendermos a nossas próprias doenças espirituais, sem nunca pensarmos nos outros! Esquecemos que tal coisa existe: o egoísmo religioso. Vamos contar. Vamos refletir que coisa triste seria ir ao céu sozinho e vamos atrair companhias conosco. Nunca devemos nos esquecer que cada homem, mulher e criança ao nosso redor, em breve estará ou no céu ou no inferno. Vamos dizer para os outros, assim como Moisés disse para Hobabe, “venha conosco e te faremos bem” (Números 10:29). Oh, esse de fato é um verdadeiro dito: “Aquele que dá de beber, será dessedentado” (Provérbios 11:25). O cristão ocioso, preguiçoso e egoísta pouco sabe o que está perdendo.

Mas acima de tudo, vamos aprender a viver a vida da fé em Jesus mais do que temos vivido até agora. Sempre estejamos ao lado da fonte, sempre estejamos nos alimentando do corpo e bebendo do sangue de Cristo pela fé, sempre tenhamos em mente a morte de Cristo por nossos pecados, tenhamos em mente Cristo ressuscitando para nossa justificação, tenhamos em mente Cristo intercedendo por nós à destra de Deus e que Cristo em breve voltará para nos levar para Si mesmo; este é o sinal que devemos ter continuamente diante de nossos olhos. Podemos cair agora, mas vamos mirar alto. Vamos andar na plena luz do Sol da justiça, e então nossas graças crescerão. Não vamos ser como árvores no frio do norte, fracas, quase famintas e infrutíferas. Mas antes, lutemos para sermos como o girassol, seguindo a grande Fonte de Luz onde quer que vá, e vê-Lo com a face descoberta. Oh, para um olho mais rápido em discernir Seus propósitos! Oh, por um ouvido mais rápido em compreender, para ouvir Sua voz!

Finalmente, vamos dizer a todas as coisas nesse mundo que interfiram entre nós e Jesus Cristo que “se afastem”; temamos para não nos permitirmos até mesmo aos mínimos maus hábitos, para que insensivelmente esses maus hábitos não se levantem como uma névoa que esconda o Senhor de nossos olhos. “Na tua luz, vemos a luz” e separado Dele, nós encontraremos um deserto frio e escuro (Salmo 36:9). Devemos trazer a mente o pedido de um filósofo Ateniense, quando o mais poderoso Monarca na terra perguntou a ele o que ele mais desejava. “Eu tenho”, disse ele, “senão, só um pedido a fazer; e é que você possa estar de pé entre mim e o sol”. Que esse seja o espírito no qual você e eu sejamos encontrados continuamente. Julguemos todos os presentes do mundo. Vamos nos assentar calmamente sob seus cuidados. Não nos importemos com nada, se pudermos apenas ver a face do Rei e se somente pudermos apenas habitar em Cristo.

Se nossos pecados são perdoados, nossas melhores coisas estão por vir.

Só mais um pouco de tempo e veremos “face a face, e conheceremos como somos conhecidos”. Nós “veremos o Rei em Sua formosura” e “não sairemos mais” (1 Coríntios 13:12; Isaías 33:17; Apocalipse 3:12). “Bem-aventurado aquele cuja iniquidade é perdoada e o pecado é coberto” (Salmo 32:1).

ORE PARA QUE O ESPÍRITO SANTO USE ESSE SERMÃO PARA EDIFICAÇÃO DE MUITOS E SALVAÇÃO DE PECADORES

FONTE:
Traduzido de http://www.tracts.ukgo.com/ryle_forgiveness.pdf

Todo direito de tradução protegido por lei internacional de domínio público

Tradução: Amon Mendes Luz

Revisão: Armando Marcos

Projeto Ryle – Anunciando a Verdade Evangélica.

Projeto de tradução de sermões, tratados e livros do ministro anglicano John Charles Ryle, mais conhecido como J.C.Ryle (1816-1900) para glória de Deus em Cristo Jesus, pelo poder do Espírito Santo, para edificação da Igreja e salvação e conversão de incrédulos de seus pecados.

Acesse em: www.projetoryle.com.br

 

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[1] 9º dos 39 Artigos da Religião, confissão de fé da Igreja da Inglaterra, que diz: “O PECADO Original não consiste na imitação de Adão (como os Pelagianos vãmente propagam); antes é um vício e corrupção da natureza de todo o homem gerado naturalmente da semente de Adão; pelo que o homem dista muitíssimo da justiça original, e é de sua própria natureza inclinado ao mal; de sorte que a carne tem sempre desejos sensuais contrários ao espírito; e por isso toda a pessoa que nasce neste mundo merece a ira de Deus e a condenação.” http://igrejaanglicana.com.br/documentos/os-39-artigos-da-religiao/

[2] O 27º dos 39 Artigos da Religião diz “O BATISMO não só é sinal de profissão e marca de diferença com que se distinguem os cristãos dos que o não são, mas é também sinal de regeneração, ou nascimento novo, pelo qual sinal, como por instrumento, os que recebem devidamente o batismo são enxertados na Igreja; as promessas da remissão de pecados e da nossa adoção de filhos de Deus pelo Espírito Santo, são visivelmente marcadas e seladas; a fé é confirmada, e a graça aumentada por virtude da oração a Deus. O batismo das crianças deve conservar-se inteiramente na Igreja, como muito conforme à instituição de Cristo” – http://igrejaanglicana.com.br/documentos/os-39-artigos-da-religiao/

[3] York Minster: Catedral e Igreja Metropolitana de São Pedro em Iorque, mais conhecida como Catedral de York é a maior catedral de estilo gótico do norte europeu, localizada na cidade de York, Inglaterra. É a sede do Arcebispo de York.

[4] Henry Venn (1725 – 1797), foi um ministro Inglês e um dos fundadores do Grupo de Clapham, um grupo evangélico pequeno, mas muito influente dentro da Igreja da Inglaterra.

Uma ideia sobre “Perdão

  1. Pedro Henrique

    Armando,

    Muito obrigado a você e aos demais irmãos que tem promovido este ministério. Resgatar esses preciosos escritos (Ryle, Spurgeon e agora o Projeto Castelo Forte) tem sido de uma importância inexpressível para aqueles que buscam um conteúdo acessível e substancial da sâ doutrina. Oro para que este mistério prospere cada dia mais. Conforme diz a Palavra, sede firmes e constantes sempre abundantes na obra do Senhor, porque o vosso trabalho não é vão no Senhor. Que Deus abençoe vocês por este ministério, e possa as necessidades. Um abraço!

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